Autossustentável e resiliente

Criado na roça, ele deu vida ao solo por meio da agrofloresta –sem nem saber que o que fazia tão naturalmente tinha nome

José Ferreira

Quando chegou à Serra da Bocaina, no fim da década de 1980, o agricultor José Ferreira encontrou uma vegetação que pouca semelhança guardava com a de um parque nacional. Até 1998, a paisagem da região fora dominada pela monocultura de banana, responsável por manter financeiramente a família de Ferreira – e a de seus vizinhos.

Por uma dessas inexplicáveis ironias da vida, a mudança de rota foi motivada pelo advento do agronegócio na região. A entrada de grandes empresas no mercado da banana aniquilou o negócio dos pequenos agricultores dali. De tão grande o baque, José se viu obrigado a mudar para São Paulo. Na cidade grande, voltou a trabalhar na construção civil por um tempo.

O destino dele e daquele pedaço de serra da Bocaina, a 240 metros de altitude, começou a mudar quando o agricultor decidiu retornar ao sítio São José, no bairro Sertão do Taquari, em Paraty. Trocou as 5 mil bananeiras antes cultivadas ali por um roçado. Plantou mandioca, inhame, abóbora, milho, feijão e cana. Era o início de uma alteração profunda na vida dele e, sobretudo, na daquela região tão devastada.

Os princípios que José passou a aplicar no sítio foram aprendidos ainda na infância, com o pai dele. Consistiam, basicamente, no consórcio de culturas comestíveis e não- comestíveis e no uso de recursos naturais para a recuperação da terra –a chamada adubação verde. Na ocasião, ele não sabia que essas práticas ancentrais tinham um nome bonito: sistema agroflorestal.

A mudança na forma de manejar o solo resultou no que hoje se vê no sítio São José: uma área totalmente reflorestada, onde há mais de 70 frutíferas e uma série de palmeiras –mais de 85% são espécies nativas da Mata Atlântica. O renascimento do ambiente trouxe junto animais silvestres que estavam ameaçados de extinção. Natureza e homem convivendo em harmonia.

De lá para cá, o pernambucano aprofundou seus conhecimentos sobre sistemas agroflorestais, sempre aliados à prática, e se tornou uma referência no assunto. Hoje, compartilha sua experiência dando consultoria a interessados em desenvolver projetos agroflorestais, fazendo workshops e palestras sobre o assunto e realizando vivências em sua propriedade, na qual só se chega após uma hora de caminhada por uma bela trilha.

José é a prova de que a interação entre o homem e a natureza são, sim, viáveis –desde que boas práticas agrícolas e os ciclos da terra sejam sempre respeitados. Mostrou quão viável é a reinserção do homem na natureza, sobretudo quando este prioriza a agricultura familiar de subsistência.

Graças ao aprendizado de técnicas de beneficiamento da produção agrícola do sítio, o agricultor consegue manter sua subsistência mesmo na entressafra. Produz, sem aditivos químicos, conservas de legumes, grãos, frutas e sucos, com validade de até 2 anos.

Tudo no refúgio de Ferreira foi construído por ele e a família: da linda casa de madeira onde mora e recebe seus hóspedes à engenhoca que capta água e faz funcionar o gerador de energia –sim, não há energia elétrica no sítio. Lâmpadas são acesas por um breve momento, quando o gerador movido à água é ligado. Fora isso, enxerga-se com luz de velas, lampiões e lanternas. Luxo, na morada do agricultor, é a simplicidade da qual as gentes da cidade se esqueceram: o silêncio sem igual, os banhos de rio, um luar inigualável, o alimento bem cultivado e recém-colhido e a conversa gostosa com este homem sábio e admirável.

PS. José Ferreira, no caso, é o “seu Zé”, maneira como Helena Rizzo carinhosa e respeitosamente o chama. Mas ele insiste: “‘Seu’ não! É Zé, ou José!”. Obedecido, Zé! 🙂

SÍTIO SÃO JOSÉ
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